Reportagem sobre a Colina do Sol
Todo mundo nu
Pedro Doria
Está seco na Colina do Sol. A grama amarelada é quase palha, o termômetro parece não baixar dos 35 nem à noite. Nos dias anteriores, um foco de fumaça provocou uma corrida de carros pela vila à procura de sua origem. Era num morro distante, o fogo debelou-se. Mas o segundo alarme é pior: vem de uma das cabanas, todas foram construídas em madeira, o proprietário parece estar fora. Etacir força a entrada – novamente, um susto; fumaça contra insetos, um produto para afastar mosquitos ou aranhas das redondezas. O dono da casa havia chegado mais cedo para passar o carnaval.
Estão todos nus. Na Colina, há 88 cabanas e, contando o comércio, hotel, albergue e restaurante, passa de 100 o número de construções, todas seguindo um mesmo padrão. Em vinte delas, os moradores são permanentes, casais, famílias que optaram por viver nuas em comunidade. O número aumenta todos os anos. Gente como Raul e Beth, donos do mercadinho; Collins, o prefeito, e Marlene; Etacir e Verônica, que gerencia a lojinha de souvenirs; Fritz e Barbara, com seu hotelzinho de um quarto. Marcelito e Iara tiveram o primeiro filho dali: Iago faz quatro anos em março. Não há na América Latina coisa igual, uma cidadezinha onde todos andam nus. Nem na Europa. Poucas nos Estados Unidos.
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