Pessoas que posaram para Spencer Tunick contam a experiência
Visões do paraíso
Por Cauê Alves
No dia 27 de abril de 2002, como foi amplamente divulgado pela mídia, o artista americano Spencer Tunick, que integra a 12ª cidade, na “25ª Bienal de São Paulo”, convidou milhares de pessoas a comparecerem ao Parque do Ibirapuera e a se despirem integralmente para realização de fotos coletivas.
A inclusão do trabalho de Tunick na “Cidade Utópica” da Bienal, é justificada com a remissão à cidade prometida, ao “estado anterior ao pecado original, que até hoje desfigura toda ação humana”. No entanto, após a realização das fotos, várias perguntas surgiram, fragilizando ou defendendo a proposição da performance.
Alguns se sentiram como num rito de comunhão primitivo; outros, ao contrário do aparente clima libertário, cerceados e vigiados. Sem a intenção de esgotar o tema, e com a função de registrar visões dissonantes, “Em obras” recolheu depoimentos de participantes do evento.
O Nu e a Rebeldia
“Quando soube da proposta de uma multidão se fazer fotografar nua, entusiasmei-me imediatamente. Não é preciso muito esforço para associar a interdição da nudez às opressões cotidianas a que somos todos submetidos, de variadas maneiras. A proposta do artista parecia rebelde e fundamentalmente libertária.
Ao chegar à marquise do parque do Ibirapuera, assinei um papel e fui introduzido num cercado onde se apertavam tantas outras pessoas. A partir daquele momento estava sob a proteção de monitores da Bienal e de policiais, enquanto era vigiado por helicópteros, curiosos e por incontáveis funcionários da imprensa, mantidos a certa distância.
O artista subiu numa escada acompanhado de sua tradutora. Vestidos, explicaram-nos detalhadamente o que deveríamos fazer e o que não deveríamos fazer. Era bem razoável o que nos pediam, e ninguém dentro do cercado se opôs. Tiramos nossas roupas assim que nos foi solicitado e fomos conduzidos para um segundo cercado, um pouco maior que o primeiro, e deste para outros cercados, conforme se finalizavam os registros fotográficos.
As pessoas estavam inquietas e ocupavam irregularmente as áreas indicadas; éramos uma espontânea multidão de pelados numa manhã quente. A tal comportamento risonho e zombeteiro, o artista e seus assistentes respondiam gritando nos megafones.
Ordenavam que nos separássemos, que nos voltássemos para a direita, que não levantássemos os braços e não abríssemos as pernas. Uma frase era mais repetida do que todas as outras e com mais intensidade: ‘Don’t smile! Don’t smile! Don’t smile!’.
Ser vigiado, receber ordens, ser tolhido, não sorrir; quem não conhece essas coisas? Não era mesmo um grande desafio; foi muito fácil, porque era estranhamente familiar.
Apesar de tal familiaridade, quando esperávamos algo inusitado, e do confinamento, quando nos haviam prometido nudez num espaço público, não encontrei sequer uma pessoa que se queixasse da experiência, que tenha sentido a falta de ludismo ou, ao menos, saudade de si, diante de tantas interdições.
Talvez se possa dizer que é preciso haver mais do que nudez para haver rebeldia. Ou que tirar a roupa, por si só, não nos traz ou rouba a liberdade. Mas, se não se puder dizer isso, que se diga pelo menos que ficar pelado de madrugada para ouvir um estadunidense gritar regrinhas nos ouvidos não é um programa muito bom.’’
Pedro Sanches
Cores de gente
“Os corpos eram objetos do artista. Não meu corpo, mas todos os corpos como um só. Nem individualidades, nem diferenças. Uma mesma cor, excessivamente pálida para um país Brasil, unificava o desenho. Estive ali, deitada no piso cinzento, cercada de corpos em variantes do bege, com um céu azulado e um silêncio branco.
Foi essa minha sensação. Tonal. E outra: a experiência do coletivo. De repartir o espaço com gente. Cheiros, barulhos e cores de gente. Nunca antes tão de perto e tão despidos. Eu pensava que fosse me constranger um pouco, mas não. Foi muito tranqüilo, muito ‘comum’ ficar nu no meio de (tanta) gente. Um estar no mundo diferente, momentaneamente suspenso. Uma experiência que é, certamente, do campo da arte.”
Ana Teixeira
Homo Sapiens Sapiens
“Escrever sobre essa experiência é difícil, porque implica racionalizá-la. O que eu posso dizer é que não dá para ficar pelado no meio de mil pessoas e sair assim, impune. Porque as pessoas te cobram uma resposta, uma posição, uma reflexão.
A naturalidade com que eu enxerguei a coisa toda bateu de frente com a reação dos outros. Virei heroína, corajosa, libertina. Fui admirada e estranhada. E o fato de ter aparecido na televisão fez com que as pessoas se achassem no direito de comentar a experiência comigo, quando na verdade ela me pertence. O assédio me incomodou.
Mas isso é a conseqüência. O que eu vivi foi como estar entorpecida, e foi exatamente o desejo de sentir essa sensação que me levou até lá: a possibilidade de vivenciar uma situação improvável, surreal.
Ao lado disso, o partilhar da vivência foi marcante. Senti-me humana, não no sentido da civilização, mas enquanto espécie humana, homo sapiens.”
Luana
Com que roupa…
“Chegar às 5h30 no Ibirapuera e ficar pelada na frente de mais algumas mil pessoas que, incrivelmente, também iam tirar a roupa pra sair na foto em pleno Ibirapuera às 5h30 da manhã.
Chegamos da festa e ainda estava escuro. Trocamos de roupa no carro, deixamos os sapatos, as bolsas e outros apetrechos no porta-malas e saímos correndo em direção ao ponto de encontro. Havia fila para entrar no parque e ainda era madrugada. Dá para acreditar? Estava frio.
Sentamos, um pouco encolhidos, tentando descobrir o que iria acontecer. Quem é o fotógrafo? Onde vão ficar as nossas roupas? Olha, a Paulinha e o Caetano! A gente vai ganhar a foto mesmo? Aquela não é a nossa ex-professora de artes? E a festa, tava boa?
Ficamos conversando e esperando, principalmente, esperando. Uma sensação de estádio antes do início do jogo ou, como disse uma jornalista, concentração de escola de samba. Havia piadinhas ditas em voz alta, papo com alguém do grupinho ao lado, briga por causa de uma máquina fotográfica, mas no fundo estava todo mundo segurando um grito.
Então vieram o fotógrafo, o megafone, as instruções e a hora de tirar a roupa, principalmente a hora de tirar a roupa. Um segundo de hesitação. Como passar da conversa fiada com os amigos para a nudez total? Foi simples, engraçado, nervoso e muito rápido.
De repente, uma massa de pelados andava em direção à foto. Eu era como eles e eles eram tão estranhos. Corpos humanos nus podem se parecer com corpos alienígenas de tão pouco acostumados que estamos. No começo, tive dificuldade em reconhecer os meus amigos. Ficávamos todos iguais: uma faixa bege entre o azul e o verde. Tiramos a primeira foto: em pé.
Percebi que o olhar de todos se mantinha na altura do horizonte. Nada de mirar num pinto ou num peito, podia constranger. E nada de encostar em algum pelado por aí, ainda mais num pelado desconhecido. Tiramos a segunda foto: deitados.
As pessoas se preocuparam em seguir as orientações, virar a cabeça para o lado esquerdo, não deixar espaços vazios, esticar bem as pernas. O relaxamento já foi um pouco maior. Levantamos e fomos para a marquise. Não sabia que teríamos de andar tanto, estando nus, que daria tempo de pensar sobre o assunto, mudar de sensação, comentar com as pessoas, encontrar uns conhecidos, reclamar da grama pinicando e ter uma convivência, inclusive, entre corpos. Também não sabia que isso poderia ser tão pouco sensual.
‘Façam como se a eletricidade tivesse caído e caiam no chão.’ Essa foi a terceira foto e nessa tivemos que encostar, coisa que as pessoas evitaram ao máximo, mesmo que fosse um braço em outro braço, como acontece em qualquer fila de cinema. Pediam desculpas, licença e aos poucos foram se acomodando. Demorou. Uma amiga minha disse que cochilou e não me lembro se foi nessa foto que a multidão, logo depois do clique, bateu palmas.
Já conseguia distinguir um pouco mais aquela gente toda: alto, baixo, gordo, magro, conhecido, desconhecido… Sentia que a qualquer momento poderíamos nos habituar. Alguém gritou para um espião: ‘Que estranho, uma pessoa de roupa!’. Não, não chegamos a tanto. Mas no final da quarta foto, na grama, confesso que fiquei um pouco frustrada de ter que vestir aquela roupa de novo e deixar o Ibirapuera em pleno sábado de sol.
Sebastiana
Cauê AlvesÉ mestrando em filosofia pela FFLCH-USP, bolsista da Fapesp e integra o grupo de Estudos do Centro Universitário Maria Antonia.
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